quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"EU tenho o direito de..."

Existem duas frases que estão intrinsecamente ligadas na vida em sociedade que vivem um fenômeno interessante nos dias de hoje. A primeira diz “tenho o direito de”, enquanto a segunda diz “tenho o dever de”. O vínculo inextrincável entre ambas parece evidente, em uma vida em sociedade, eu ter direito a algo implicará necessariamente que em algum cenário, outra pessoa terá o dever de ceder a esse algo e vice-versa. Porém, nos dias de hoje, enquanto a primeira exerce um grande apelo para a maioria, sempre pronta a reivindicar todo e qualquer direito disponível, a segunda foi relegada a um inconveniente segundo plano, que essa mesma maioria se apressa a rejeitar.

Circunstanciarei para sair do campo teórico. Ontem, fui a um hortifruti fazer algumas compras e, pela primeira vez na vida, vi uma cliente com um pequeno cãozinho de colo fazendo compras. Causou-me simpatia, pois tive um cãozinho durante 15 anos em uma época em que o mundo era menos receptivo à presença canina entre nós. Mais de uma vez, fiquei do lado de fora enquanto minha esposa comprava coisas ou fizemos o contrário. Em aeroportos, tivemos tratamentos bastante segregadores, devido à presença do pequeno cãozinho, entre muitos outros exemplos. Hoje em dia, temos gatos por quem somos igualmente malucos. Por isso, fiquei, por um lado, muito contente com a cena.

Ainda assim, apesar de meu claro posicionamento em relação ao fato, sou capaz de me colocar em outras posições para refletir a respeito. Suponhamos que eu seja uma pessoa que tem fobia a cachorros ou simplesmente não goste deles, porque, sim, isso é possível. Existem pessoas que têm o direito de não gostar. Como lidar, portanto, com uma situação em que uma pessoa reivindica o “direito de” fazer suas compras com um cão à tiracolo e outra reivindica o direito de fazer sua compra em um ambiente livre de cães? A resposta a essa pergunta exige que abandonemos nossos gostos e preferências pessoais e pensemos no todo como um espaço em comum em que só há dois caminhos: a negociação ou o conflito.

E é no meio desses caminhos que surge o que a maioria se recusa a aceitar, que é a existência da política. Qualquer que seja a escolha, a negociação ou o conflito, a política será crucial. Se prefiro o conflito, devo me certificar que tenho forças suficientes para impor minha vontade, meu “direito de” e, a menos que eu sofra de um caso extremo de megalomania, terei que entender que precisarei de aliados. Pois ninguém é isoladamente mais forte que todos (a não ser as Big Techs e sua sede, o país que se denomina bastião da democracia sem nunca ter sido democrático e que aniquila direitos alheios em qualquer lugar que se oponha a sua vontade). Se optarmos pela via da negociação, ainda assim precisaremos de aliados, argumentos sólidos e estar dispostos a ceder em alguns pontos. Na história do mundo, os dois caminhos não são, no entanto, excludentes, são emaranhados e muitas vezes um se mascara para parecer o outro, às vezes, um aparece com maior recrudescimento e outro se recolhe, normalmente quando anos de fracasso de um dos dois levam a um esgotamento da confiança em sua eficiência.

Hoje, vivemos em um tempo em que as pessoas acostumadas a ver noticiários em que apresentadores gritam declarando que todos são bandidos, colocando-se acima de qualquer juízo moral, o grito de reivindicação de direitos, do “tenho direito de”, está presente em todo lugar. “Tenho direito de entrar com meu cachorro, porque é meu cachorro”, “tenho direito de apontar o celular para a sua cara e fazer um vídeo”, “tenho direito de ouvir música no volume que eu quiser para me divertir”, “tenho esse e mais uma miríade de direitos intermináveis”, mas “você não tem o direito de entrar com seu hamster aqui”, “você não tem o direito de se recusar a aparecer no meu vídeo do Instagram”, “você não tem o direito de andar pelo parque no silêncio”, “você não tem uma miríade de direitos intermináveis”.

Em algum momento, com sorte talvez, os detentores de todos esses direitos encontrarão o muro dos direitos alheios de forças instransponíveis e desejem novamente reivindicar o direito de negociar, entendendo que o sujeito “eu” não é e nunca será o fórum privilegiado detentor de todos os direitos. Quiçá...

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