“Ah, passado, passado, por que me persegues assim? Porque não posso andar na frente.”
“As fotos congelam o tempo” é uma frase bastante comum, quase um clichê, que ouvimos e repetimos frequentemente. Mas os clichês costumam ter dois efeitos: a sua aceitação ou rejeição imediata. Em ambos os casos, porém, escapam à reflexão, são relegados ao campo morto das verdades irrefutáveis ou das coisas sem importância (sinônimos quiçá?). Às vezes, como eu mesmo não sou mais que um clichê, uma repetição gasta de inúmeros outros seres que passaram por este mundo, desconfiados e ruminantes entre a esperança e a desesperança, calvos e risonhos por vezes, embora com um riso triste se olhado de perto, frequentemente sou tomado por um desejo de analisar os clichês. Talvez seja esta uma das principais funções ou atribuições ou, ainda, sinas de um estulto. Pois bem, voltemos às fotos. Elas congelam o tempo. A rigor não o congelam, pois o tempo passa a despeito de toda imobilidade da imagem que aprisionam. E se formos capazes de tirar o olho do conteúdo estático da foto e olharmos para ela enquanto objeto ou suporte, veremos que nada tem o tempo de congelado. Lembro-me de minha foto sépia, verdadeiramente sépia e não por obra de um tosco efeito de computador, que na parede do quarto que eu ocupava na casa dos meus pais mostra a criança de quatro anos, com um uniforme amarelo (imagino-o amarelo, pois a foto era em preto e branco), com a língua para a fora no canto da boca devido à timidez. Sei que a criança sou eu, e a foto já está praticamente toda apagada. Com quatro anos permaneci lá todos estes anos, mas hoje é quase apenas uma moldura de madeira e uma placa de compensado apagada. Rapidamente os mais neófilos responderão que hoje as fotos digitais têm maior esperança de vida ou que em condições de preservação museológicas, ela poderia ter tido mais sorte. Sim, verdade. Dou-lhes isto. Mas ainda assim, as fotos digitais do meu HD dependem da vida útil do dispositivo, dos dispositivos de cópia de segurança, da minha capacidade de reproduzi-las e, em última instância, da garantia de existência de todos os recursos que permitem a sua preservação, quer seja a minha capacidade de sustentar esta estrutura ao longo dos anos ou a capacidade da humanidade de sustentar estes recursos ao longo dos anos. Em última instância, os computadores, a eletricidade, as molduras de madeira e até os museus deixarão de existir e tempo reinará soberano sobre a memória das fotos que um dia ousaram desafiá-lo segundo as más línguas atreitas a clichês.
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