segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A ponte

Em um determinado momento aquela ponte pareceu imensa, intransponível para qualquer ser de naturais forças. Olhou para trás e retornar pareceu-lhe uma tarefa igualmente ingente. Retornar garantiria um caminho certo, sem percalços outros que aqueles já conhecidos. Mas se desistisse jamais saberia o que havia do outro lado. Lembrava-se bem das palavras do sábio, o único que conhecera que já tinha visto o além-ponte. Seus pés descalços já tinham incômodos calos que insistiam pelo fim da jornada. Seis dias já havia que andava, ao sétimo o sábio descansou. Faltava pouco, não poderia desistir agora. O sábio dizia-lhe que as frutas do outro lado eram mais doces, havia flautas que soavam melodias inauditas a cada novo passo, fadas nuas ao nosso dispor, doces como as uvas, puras e tenras quais bezerras, ninfas inocentes e perversas, tudo a um tempo. Não havia fome ou sede nem gula nem excessos, pois a justa moderação dava a cada desejo saciado seu devido jazigo. Se voltara, foi porque não era um homem para tamanha harmonia.

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